Troca de conhecimentos e fortalecimento político marcam intercâmbio de mulheres indígenas do Amapá, norte do Pará e Amazônia

66 mulheres de 15 povos discutiram as dificuldades para a sua participação na política, os desafios enfrentados na educação e na saúde indígenas e as ameaças aos direitos indígenas previstas para 2019

Algumas das 66 participantes do intercâmbio

Entre os dias 22 e 24 de novembro de 2018, 66 mulheres de 15 povos indígenas (Aparai, Tiriyó, Txikiyana, Wayana e Katxuyana, da TI Parque do Tumucumaque, Karipuna, Palikur e Galibi Marworno, do Oiapoque, Shanenawa e Katukina, do Acre, Sapará e Wapichana, de Roraima, Baré, do Amazonas, e Kaiabi, do Xingu, além das anfitriãs wajãpi) participaram do Intercâmbio Regional de Mulheres Indígenas do Amapá, norte do Pará e Amazônia, realizado pela Rede de Cooperação Amazônica (RCA), no Centro de Formação e Documentação Wajãpi, Terra Indígena (TI) Wajãpi, no Amapá. Estiveram presentes representantes de 7 organizações indígenas da RCA (AMAAIC, AMIM, Apina, ATIX, CIR, FOIRN e OPIAC), além de mulheres da TI Parque do Tumucumaque, convidadas pelo Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena.

Durante os três dias em que estiveram juntas, as participantes contaram umas às outras sobre os seus contextos de vida, compartilharam experiências sobre a sua participação na política dentro e fora das aldeias, visitaram roças, discutiram sobre as diferentes técnicas de plantio e espécies cultivadas, e apresentaram suas danças, cantos, pinturas corporais, e artefatos. Além disso, a partir dos problemas e demandas específicos identificados pelas representantes de cada povo, foi construído um conjunto de reivindicações coletivas sobre educação, saúde, alimentação, defesa dos direitos indígenas e valorização dos conhecimentos tradicionais, reunidas no documento final do intercâmbio.

Mulheres na linha de frente da luta

É coletivamente que as mulheres se fortalecem e estimulam umas às outras a avançar em espaços nos quais, apesar de rara presença em tempos passados, cada vez mais, se sentem à vontade e confiantes para expor seus pontos de vista. Durante o intercâmbio, foram muitos os depoimentos sobre a luta pela conquista de espaço na política dentro e fora da aldeia. Cecília Apalai, que começou a se envolver na política de sua aldeia aos 15 anos, contou sobre a dificuldade de sua comunidade para aceitar a presença de uma mulher em um espaço até então dominado pelos homens. “Para o meu povo, só homem que liderava, o lugar da mulher era servir comida e bebida. Hoje, tenho o apoio dos caciques, das lideranças das aldeias. Eles estão do nosso lado”, relatou. Além das barreiras externas, a vergonha e o sentimento de deslocamento também foram citados como impedimentos para a participação feminina na política. Maria das Graças, tiriyó, compartilhou com as mais jovens o seu processo de empoderamento para participar nas reuniões da sua aldeia: “Antes eu ia para as reuniões e ficava na rede, não conseguia falar, até que eu decidi mudar. No começo, ficava com vergonha, tremendo, com timidez. Todo mundo tem vergonha, mas depois a gente acostuma a falar. Eu trouxe as meninas [mais jovens] comigo para elas aprenderem a falar na frente dos caciques. Na minha aldeia eu sou a única mulher que fala na frente deles ”. Luene Karipuna, do movimento da juventude indígena do Oiapoque, ressaltou o caráter formativo deste tipo de evento: “Gostei muito de estar aqui, e ver as jovens participando ao lado das senhoras, porque assim a gente forma as mulheres da nova geração, que serão as futuras lideranças, para atuarem junto às nossas mães, tias e avós”.

Wisio Kaiabi fala sobre os problemas enfrentados pelos Kawaiwete 

O espaço conquistado se consolida ainda mais com o surgimento das associações de mulheres indígenas. No Oiapoque, a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), criada em meados de 2006, foi uma importante conquista para a inserção feminina no quadro de interlocutores nas articulações políticas do movimento indígena da região. No Xingu, as mulheres Kawaiwete – como se autodenomina o povo conhecido como Kaiabi – também estão buscando ampliar o seu espaço nas discussões, e, para isso, criaram um setor de mulheres dentro da organização Kawaiwete. “Pouco a pouco, e cada vez mais, estamos conseguindo que as mulheres participem das discussões de saúde e educação”, afirmou Iré Kayabi. “Não podemos deixar só os homens defenderem o nossos territórios. Estão começando a mexer em nossas terras, grandes problemas vão acontecer. Precisamos nos preparar para lutar junto com os homens”, completou Arawaje Waiana Apalai.

Para que a inserção das mulheres nos processos decisórios seja cada vez mais intensificada, as participantes consideraram fundamental a organização de mais intercâmbios, que são espaços de encorajamento e estímulo para mulheres ainda não acostumadas a se manifestar em espaços políticos. Além disso, ponderaram ser fundamental o apoio às associações de mulheres, e a sua inclusão nas instâncias de discussão sobre políticas públicas.

Educação indígena X Educação escolar indígena

“Os saberes que temos, de como se faz farinha, não sentamos na faculdade para aprender. Foram ensinamentos passados há muito tempo por nossos antepassados. Os indígenas ensinam os filhos nos lugares de trabalho. A mãe ensina a filha na roça”, explicou Sandra Baré, apresentando uma das questões debatidas pelas mulheres durante o intercâmbio, formalizada como demanda no documento final: a necessidade de uma educação de fato específica e diferenciada. Entre os muitos relatos, repetiram-se críticas ao engessamento da estrutura curricular das escolas indígenas, que muitas vezes inviabiliza os modos indígenas de transmissão de conhecimento, baseados, como mostra a fala de Sandra, na vivência do cotidiano dos mais velhos. As meninas acompanham as mães nas tarefas diárias desde pequenas. Aprendem observando e, gradualmente, executando as tarefas femininas. Com os meninos acontece o mesmo, acompanham, observam e aprendem com os pais. “Com uns 5 anos, as meninas já acompanham a mãe nas suas tarefas diárias, para observar o trabalho, aprender, e executar algumas tarefas que já estão ao seu alcance. Ela acompanha a mãe na roça, e é feito um jamaxim pequenininho para ela já ir aprendendo a carregar a mandioca, batata e cará. Também é estimulada a aprender a ralar a mandioca, mas rala só um pouco, porque ainda não sabe direito. A menina senta junto com a mãe para observar ela usando o tipiti, e já ir aprendendo a espremer a mandioca”, conta Kanani Waiãpi.

Lição de política: as crianças wajãpi acompanharam as atividades e discussões do intercâmbio 

Como opinou Bernadete Karipuna, a escola indígena específica e diferenciada deve possibilitar às crianças e jovens o acompanhamento dos afazeres dos mais velhos, para garantir que os conhecimentos indígenas também sejam transmitidos e fortalecidos. “Os meus filhos ia para escola desde 7 anos, mas também iam na roça. Aprendiam nos dois espaços. Hoje são professores, mas também sabem fazer farinha. Eu faço artesanato, e vou à escola ensinar os alunos. Já estávamos perdendo esse conhecimento, mas agora estamos dando continuidade”, relatou. Segundo Reneide Shanenawa, na escola onde é professora, na TI Katukina-Kaxinawá, a estrutura curricular foi organizada levando em conta o que se aprende na escola, e o que se aprende fora dela, e a necessidade de não haver prevalência dos conhecimentos dos não-indígenas sobre os dos indígenas. “Na nossa aldeia, só quem dá aula são indígenas, e a escola trabalha muito os nossos conhecimentos. Levamos as crianças para trabalhar nas roças, e a maior parte do ensino é na nossa língua”, afirmou.

Comida de branco, roça e alimentação tradicional

A responsabilidade pelo cuidado com as crianças, pelo cultivo nas roças, e pelo preparo de alimentos dota as mulheres de uma sensibilidade especial para tratar do tema da alimentação. É unânime entre elas a percepção de que a inserção de alimentos industrializados, do sal e do açúcar nas aldeias está provocando danos insustentáveis,  como o crescimento vertiginoso dos casos de diabetes e hipertensão entre os indígenas, e que esse fenômeno precisa ser contido. “Se nos acostumamos com alimentos dos brancos, se tomamos refrigerante, comemos conservas, mortadela, doces, será que estamos bem alimentados? Será que estaremos saudáveis? Não, para isso precisamos dos alimentos originais, chibé, frutas. Nossos antepassados não comiam sal nem açúcar, e não tinham essas doenças. Açúcar era da banana bem madura”, opinou Karai Waiapi, que vive na TI Parque do Tumucumaque. Para Cecília Apalai, é preciso conscientizar as pessoas sobre o valor nutricional da alimentação tradicional indígena, que inclui peixes, beiju, farinha e pimentas. As escolas, que poderiam colaborar nesse processo oferecendo alimentos locais e tradicionais na merenda, muitas vezes optam pelos industrializados, e acabam influenciando as famílias a desvalorizarem os alimentos orgânicos produzidos nas aldeias, lembrou Sandra Baré. “As mulheres têm grande potencial de introduzir bons hábitos alimentares nas famílias, por isso é muito importante a realização de oficinas para a valorização da alimentação tradicional voltada para as mulheres”, completou.

As participantes conheceram 3 roças wajãpi e levaram cará para plantar em seus roçados

No segundo dia de intercâmbio, o grupo visitou três aldeias e roças wajãpi, momento que evidenciou o riqueza de cultivares das roças indígenas, e propiciou trocas sobre técnicas de plantio e de preparo dos alimentos. “Foi muito bom conhecer as espécies plantadas pelas parentas wajãpi, e vi que lá no rio Negro temos 19 espécies que elas não cultivam aqui. Por isso esse intercâmbio é importante, podemos trocar mudas e ampliar nossos cultivos”, comentou Sandra Baré. Observando o jerimum das wajãpi, Arawaje Waiana Apalai compartilhou com as participantes uma receita de bebida fermentada inédita para a maioria delas. “Na nossa aldeia fazemos bebida fermentada de jerimum. É muito fácil. Quando ele estiver bem docinho, você cozinha, depois mastiga um pouco e põe pra fermentar”, explicou ao grupo que demonstrava muito interesse.

Mais médicos, mais pajés e mais parteiras

A ausência de médicos nas aldeias, agravada com a saída dos médicos cubanos, foi outro tema apontado como urgente pelas mulheres indígenas. “Hoje já é muito difícil remover pacientes para a cidade. Tem que conseguir avião ou barco. Leva tempo. Sem médicos nas aldeias para acompanharem os doentes e prestarem um primeiro atendimento, haverá muitas mortes”, alerta Iré Kayabi. A necessidade de atenção especial à saúde da mulher indígena, e de maior participação delas nas decisões sobre o tema, também foram demandas colocadas.

Além das reivindicações ao poder público, as participantes consideraram fundamental para a saúde das populações indígenas a valorização dos conhecimentos e práticas tradicionais. “Tem doenças que a gente sabe que não é de médico, é de pajé. Ele defuma, tem os remédios dele, que a gente usa muito. Faz banho e chá com as plantas que temos na aldeia e a pessoa melhora”, afirmou Bernadete Karipuna. “Os pajés sabem como nos ensinar os cuidados com a saúde. Tem também as parteiras, que têm muito a ensinar às mulheres grávidas”, completou Cleide Sapará. “O resguardo de 40 dias após a primeira menstruação é fundamental para que a mulher não desenvolva doenças no útero mais tarde. As idosas faziam muito isso, mas as jovens não têm feito, e ficam doentes. Temos que fazer oficinas para revitalizar e fortalecer nossa medicina tradicional”, opinou Sandra Baré.

Unidas na defesa dos direitos indígenas

2019 foi considerado pelas mulheres indígenas participantes do intercâmbio como um ano no qual os direitos indígenas estarão seriamente ameaçados, e, diante deste cenário, elas planejam estar preparadas e articuladas para a luta em defesa de seus territórios e culturas. “O novo governo vem falando que não vai ter mais demarcação, isso é uma grande preocupação”, disse Iré Kayabi. “Sabemos que eles querem plantar soja em TIs, o novo governo não defende os nossos direitos. Precisamos nos mobilizar para não perder o que conquistamos ao longo de tanto tempo”, reforçou Reneide Shanenawa. No documento que produziram, as participantes se posicionaram contra os retrocessos no direito às TIs já demarcadas e exigiram a garantia da demarcação para os povos que ainda não tiveram seus territórios reconhecidos. Também declararam repúdio à possibilidade de liberação da mineração em TIs. E declararam apoio a atuação das organizações indigenistas, consideradas importantes parceiros na promoção do bem estar dos povos indígenas.

Para elas, a continuidade de reuniões, assembleias, intercâmbios e encontros de mulheres é um instrumento fundamental para que possam se manter engajadas na luta. “Temos que fazer intercâmbios em cada lugar para conhecer as diferentes realidades. As mulheres têm que se reunir e trocar ideias para dar força uma para a outra”, disse Wisio Kaiabi. “É importante essa força que vejo nas conversas entre as mulheres. Vamos continuar alegres e lutando pelas nossas coisas”, finalizou Karai Waiapi.

 

 

 

 

0 Comentários

    Deixe um comentário

    quatro × um =

    XHTML: Você pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

    Rede de Cooperação Amazônica

    A RCA tem como missão promover a cooperação e troca de conhecimentos, saberes, experiências e capacidades entre as organizações indígenas e indigenistas que a compõem, para fortalecer a autonomia e ampliar a sustentabilidade e bem estar dos povos indígenas no Brasil.